NOS Alive: Da ‘pujança’ de Black Keys ao culto de Red Hot Chili Peppers

Arrancou, na quinta-feira, a 15.ª edição do festival NOS Alive, no Passeio Marítimo de Algés, e pode-se dizer que foi o melhor regresso (possível) do ‘melhor regresso de sempre’ (o ‘slogan’ do festival em 2022, ano em que se quebrou um hiato obrigatório devido à pandemia da Covid-19).

Os primeiros festivaleiros a chegar iam limpando o suor da testa, tratavam dos trâmites obrigatórios – entenda-se, tirar a ‘selfie’, comprar aquela cerveja ou aquele pão com chouriço – e plantavam-se perante o palco NOS, onde, dali a umas horas, iriam tocar os cabeças-de-cartaz deste dia: os Red Hot Chili Peppers.

Era o seu mítico logótipo, aliás, que mais pintava a plateia ansiosa diante do palco principal do festival. Antes, no entanto, houve The Black Keys, Puscifer e The Driver Era, bem como Ibibio Sound Machine, Jacob Collier e Men I Trust. Ao início da tarde, adivinhava-se um dia em grande, e que dia (e noite) em grande foi, apesar dos constrangimentos causados pela greve da CP que fustigou os acessos ao festival.

Red Hot Chili Peppers

O momento alto do primeiro dia de NOS Alive em 2023 começou às 23h30, quando do palco NOS emanava uma música que mais se assemelhava ao início de um filme de terror. Subiam ao palco parte dos Red Hot Chili Peppers, numa longa ‘jam’ inicial para aquecer os motores. Depois, sim, surgiu o vocalista Anthony Kiedis na frente, a comandar as tropas, tal como o faz desde 1982. Desde logo, com ‘Can’t stop’ a abrir as hostilidades na fileira da frente, recheada de fãs vestidos a rigor e fortes vibrações no ar.

Ouviu-se ‘Universally Speaking’ e ‘Dani California’, acompanhada de uma ‘masterclass’ de bateria organizada por Chad Smith e, de tema em tema, tanto dos álbuns mais recentes como dos mais antigos, a banda de Los Angeles ia validando o esforço dos seus fiéis fãs, alguns deles ‘plantados’ na ‘frontline’ desde as primeiras horas da tarde.

Depois de ‘Suck my kiss’ e ‘Right on time’, guitarrista (John Frusciante, que regressou em 2019 à banda) e baixista (Flea) protagonizaram um dos momentos mais ‘bonitos’ da noite, tocando frente a frente, em momento intimista, que deu azo ao tema icónico da banda, ‘Californication’. Flea, aliás, que foi o mais comunicativo da banda com o público, falando mesmo… da lua. “Não vos quero alarmar, mas a lua está mesmo em cima de vocês. Linda”, disse, para além de professar o seu amor pelo “ar”, “água” e “terra” de Portugal.

A noite de quinta-feira foi rica em temas clássicos da banda, remontando às profícuas décadas de 1990 e 2000. Também houve, no entanto, espaço para uma interessante interpretação de ‘Dreamboy/Dreamgirl’, tema original do dueto Cynthia & Johnny O, por parte de Frusciante, e de um ‘cover’ de ‘What is Soul?’, dos Funkadelic.

Quando os Red Hot Chili Peppers concluíram ‘By the way’, depois de um arranque em falso devido a problemas com o auricular de Flea, houve mesmo quem achasse que a noite ia acabar sem se ouvir alguns dos temas mais conhecidos, como ‘Under the bridge’ ou ‘Give it away’.

Não passou, no entanto, de um ‘susto’. Os norte-americanos concluíram o concerto de hora e meia, marcado por altos e baixos e um ambiente ‘morno’, com um ‘encore’ que se aproveitou do balanço apanhado na reta final.

The Black Keys

A primeira banda confirmada para esta edição do NOS Alive foi, precisamente, a norte-americana The Black Keys, que, em 2014, se estreou no palco principal deste festival. Nove anos depois, continua a dar que falar, e pela mesma razão de sempre: o Rock and Roll à americana, com ‘pujança’, a fumaça, os solos de guitarra e a ‘garra’.

Já na altura, ‘Lonely Boy’, do álbum ‘El Camino’ (responsável por lançar banda para o estrelato) foi o momento alto da noite, tal como o tinha sido em 2012, no seu concerto de estreia em Portugal, no (então) Pavilhão Atlântico.

Em 2023, não foi diferente. É certo que a banda formada em Akron, no Ohio, em 2001 (11 anos antes do seu grande ‘hit’, ‘Loney Boy’!), percorreu extensivamente a sua discografia no Passeio Marítimo de Algés, mas o público não perdoou e confirmou a previsão: foi principalmente em ‘Lonely Boy’ que se sentiu, realmente, uma vibração transversal a quem os ouvia, entoando o tão popular refrão.

Claro que noutros temas também populares da banda, como ‘Howlin for you’, ‘Gold on the ceilling’ e ‘Little Black Submarines’, também se cantou e dançou muito, mas é ‘Lonely Boy’ que vence o prémio de música que ‘mais puxa’… apesar de alguma descoordenação entre o vocalista Dan Auerbach e a percussão da banda, ainda que momentânea.

Em sentido positivo, Auerbach e o seu amigo e companheiro de banda, Patrick Carney, protagonizaram ainda um imponente espetáculo em palco, tanto pela música como pelos esquemas de luzes em palco, que completaram a imagem tão conhecida já dos The Black Keys.

Depois de tocar, esta quinta-feira, em Lisboa, vindos de Nimes, França, onde participaram no Festival de Nimes 2023, a banda segue para Madrid, mais uma paragem do tour ‘Dropout Boogie’, com o álbum (2022) homólogo em mãos. O concerto é esta sexta-feira.

Jacob Collier

Já lá vão os tempos em que Jacob Collier era apenas um nome do YouTube partilhado entre os ‘nerds’ da música, fascinado com poliritmos, harmonização e novos horizontes no setor da intersecção rítmica e melódica. O britânico é, hoje em dia, um dos nomes que ‘há’ que conhecer… e o concerto no palco Heineken, no NOS Alive, foi prova disso.

Collier, com o seu habitual estilo extrovertido, de vestimentas coloridas e acompanhado por uma banda completa e perfeitamente capaz, fez ao mundo saber o que o levou ao topo: o seu virtuosismo. Os festivais não serão, talvez, o habitat mais propício ao britânico e às suas famosas harmonizações com o público, mas isso não o impediu de dar uma verdadeira ‘masterclass’ de habilidade musical, de entendimento sobre como funcionam os interstícios do ritmo, da melodia e da harmonia, em ‘With The Love In My Heart’.

Sete anos se passaram desde ‘In My Room’, álbum ao qual ainda vai buscar temas para os seus concertos, tal como aconteceu em Algés, e tem sido, mesmo, um período de maturação. Até pelas colaborações, entre outros com Daniel Ceasar e com Maro, a portuguesa com quem protagoniza o tema ‘Lua’, e que subiu ao palco e acompanhou Collier nesta edição do Alive, para fascínio dos fãs da dupla.

Collier é um ‘showman’ nato, seja sentado ao piano ou de guitarra – ou de baixo, ou de pandeireta – em mãos, e o público não desilude… a ‘força’ com que canta o nome de Jacob não deixou sombras para dúvida.

Men I Trust

Do primeiro dia do NOS Alive destaca-se ainda a prestação dos canadianos Men I Trust,  liderados pela eternamente sorridente Emmanuelle Proulx.

Perante um público relativamente apático, mais preocupado em ver as horas para não perder outros concertos do que em prestar atenção aos montrealenses, que percorreram praticamente a sua discografia toda, uma coisa é certa: ‘Oncle Jazz’, o álbum de estúdio lançado em 2019, é o grande ‘chamariz’ da banda. Soavam os acordes de ‘Something in Water’, ‘Tailwhip’ ou ‘Numb’ e o efeito é imediato: todo os presentes começam a dançar.

Os Men I Trust tiveram de lutar contra alguns problemas técnicos: o microfone de Emmanuelle insistia em não funcionar nos primeiros momentos e a equalização dos instrumentos estava bastante desequilibrada, mas o concerto, de cerca de uma hora, mostrou o potencial que têm, ainda por afinar.

Segundo dia para quem não se cansa

O primeiro dia do 15.º NOS Alive fechou com bons augúrios para mais uma edição em cheio do festival que mexe, todos os verões, a zona do Passeio Marítimo de Algés. Esta sexta-feira, o concerto mais esperado da noite é o de Arctic Monkeys, que visitaram Portugal em 2022, para estrear o festival Kalorama, no parque da Bela Vista, em Lisboa. Também Lil Nas X e Lizzo pisarão, no entanto, o palco NOS, para fechar o dia.

Em português, o dia será também de grande emoção, especialmente para os fãs de Linda Martini e de Jorge Palma, que ocupam também os seus lugares na lista de artistas a tocar neste dia.

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