Novo espetáculo de Luis Miguel Cintra recupera ‘D. Quixote de La Mancha’

 

Trata-se de um espetáculo que parte de diálogos de “D. Quixote de La Mancha”, obra de de Miguel de Cervantes, na tradução de José Bento, da Relógio d’Água, que “nasce do tempo do confinamento, quando o isolamento nos devolveu uma imagem sem disfarces do nosso quotidiano”, revelou o produtor, Levi Martins, em comunicado.

Perante a ameaça da doença e da morte, perante a “evidência de como o essencial da vida (as relações humanas) está camuflado no vazio do dia a dia que a sociedade que herdámos nos permite, não sentimos falta de cultura. Sentimos falta de alegria verdadeira, de generosidade, falta uns dos outros. Ficou bem claro que a cultura não é, como parece, distração ou passatempo, não é riqueza, é a prática do que define um ser humano, o pensamento, o amor”, afirma.

“E tivemos saudades, lembrámo-nos doutros tempos, de coisas que tinham formado a nossa personalidade. Lembrámo-nos do Dom Quixote de Cervantes, um dos grandes textos da Cultura Ocidental que todos julgam que faz parte da cultura geral básica de todo o mundo civilizado, aquela parelha que até tem estátua na Praça de Espanha de Madrid e que é emblema para o povo espanhol: Dom Quixote e Sancho Pança”, considera o diretor de produção do espetáculo.

No entanto, não é nesse “molhado que chove (e chora)” que o espetáculo surgiu, mas da transformação dos “diálogos de dois dos mais famosos episódios desse maravilhoso livro”, num pequeno teatro íntimo, onde, além dos dois anti-heróis “maravilhosamente expostos na sua solidão”, aparecem também os atores de uma companhia ambulante e um “pseudo-diabo”, um negociante que mostra um retábulo de marionetas “que faz explodir a generosidade antiga do cavaleiro andante”.

“É um Pequeno Teatro ad usum delphini, um pequeno formato que fala do único assunto de todo o teatro: o ser humano”, explica, especificando que recupera “uma estalajadeira cheia de saúde e o prazer de formas já inventadas, como os caretos, o romanceiro tradicional ou os teatros de bonecos”, de que ainda se conhece como “nobre exemplo” os de Santo Aleixo.

Fazendo conviver uma sanfona com um jovem baterista, o espetáculo dá ainda a ouvir algumas frases como “a maior loucura que um homem pode fazer nesta vida é deixar-se morrer sem mais nem menos, sem ninguém o matar, nem outras mãos que o acabem a não ser as da melancolia”, um conselho de Sancho ao seu velho amigo Quixote.

O espetáculo, que vai estar em cena até 08 de julho, é uma coprodução da Companhia Mascarenhas-Martins com o Museu da Marioneta/EGEAC-Cultura em Lisboa, e conta no elenco com Duarte Guimarães, Ivo Alexandre, João Reixa, Sofia Marques, Vicente Moreira e os músicos Diogo Sousa e Hugo Osga.

O ator e encenador Luís Miguel Cintra foi distinguido no dia 18 de maio, juntamente com Jorge Silva Melo, com um doutoramento ‘honoris causa’ pela Universidade de Lisboa, uma distinção que reconheceu ser também para quem cria e estuda o teatro em Portugal.

O reconhecimento foi-lhes atribuído sob proposta da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo estudaram nos anos 1960 e iniciaram o percurso no teatro.

No discurso de agradecimento, Luís Miguel Cintra, que cofundou o Teatro da Cornucópia com Jorge Silva Melo, estendeu o reconhecimento a quem faz teatro em Portugal e a quem se dedica à Cultura: “A Cultura é a maneira de as pessoas viverem, é aquilo que pensam. É de todos os cidadãos, não só dos que têm dinheiro para comprar cultura. A Cultura não é uma coisa que se compre, é uma coisa que se vive”.

O encenador sublinhou: “As pessoas pensam que quando são atribuídos subsídios ao teatro, são para os artistas terem que comer e porque merecem um prémio pelo seu mérito. São subsídios à população, permitem que certos espetáculos existam e que sejam possíveis de ser vistos por pessoas a quem eles são úteis”.

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