Novo museu de Madrid mostra coleções de arte dos reis de Espanha

O projeto da Galeria das Coleções Reais nasceu em 1998, custou cerca de 170 milhões de euros e abre portas em 29 de junho, num edifício construído ao lado do Palácio Real de Madrid e da catedral da Almudena, que já recebeu 14 prémios de arquitetura.

O museu será inaugurado, formalmente, em 25 de julho pelos reis de Espanha, Felipe VI e Letizia, que não têm poder de encomendar obras de arte e nem a coroa espanhola as pode possuir, ao contrário do que aconteceu com os monarcas do país até ao final do século XIX.

Em Espanha, há 19 palácios e 10 mosteiros reais e, dentro deles ou sob gestão do organismo público Património Nacional, 170 mil obras de arte.

“Todo este património é do Estado, não é da Coroa”, ao contrário do que acontece noutros países europeus, explicou a presidente do Património Nacional, Ana de la Cueva, durante uma visita esta semana à Galeria das Coleções Reais de jornalistas de meios comunicação internacionais.

É assim desde o final do reinado de Isabel II, em 1868, mas até lá, houve 400 anos de monarquia em que os reis de Espanha encomendaram e compraram obras a artistas ou objetos para uso quotidiano que são atualmente consideradas obras de arte.

Por causa da dimensão da coleção, 170 mil obras, “muitíssimas peças” que vão agora poder ser vistas na Galeria das Coleções Reais nunca foram mostradas ao público, porque estavam em armazéns ou em espaços não visitáveis, como alas de palácios fechadas, conventos ou sacristias, segundo Ana de la Cueva.

A exposição inaugural do novo museu tem 650 peças, oriundas de todos os palácios e mosteiros reais.

Um terço dessas obras irá rodando com regularidade, em alguns casos por exigências de conservação (como os livros da biblioteca do mosteiro do Escorial, que só podem ficar expostos três meses, no máximo), ou por serem objetos “muito relevantes” dos palácios e mosteiros a que pertencem.

A galeria está organizada cronologicamente por reinados, o que permite ter uma noção da história e “da mudança dos interesses e da estética” ao longo de 400 anos, desde 1516 até ao reinado de Afonso XIII, o último rei antes da República espanhola de 1931-1939.

Nesta primeira exposição, podem ser vistos tapetes – alguns deles gigantescos – da coleção de tapeçaria real espanhola, considerada uma das maiores e mais relevantes do mundo, com peças desde o século XVI ao século XVIII.

Há ainda obras de Velázquez, Caravaggio, Goya, La Roldana (a primeira mulher nomeada oficialmente escultora, na corte espanhola de 1692) e de Miguel de Cervantes, com uma primeira edição do “D. Quixote”.

Além do espaço desta exposição (distribuída por dois andares de 1.600 metros quadrados cada um), há ainda um terceiro piso, com a mesma dimensão, dedicado a exposições temporárias e com um “cubo imersivo”, com projeção de imagens dos palácios, mosteiros e jardins reais.

“Pretende-se que seja uma montra de todo o património nacional”, disse Ana de la Cueva, que explicou que o objetivo imediato é atrair à galeria os 1,5 milhões de visitantes anuais do vizinho Palácio Real de Madrid e criar neles o desejo de ir também aos 29 “reais sítios” de Espanha.

A par das obras de arte, o próprio edifício do museu pretende ser um chamariz de atenções.

O projeto é dos arquitetos espanhóis Emilio Tuñón Álvarez e Luis Moreno Mansilla – este último, morreu em 2012, antes da conclusão da obra do edifício, em 2015.

O edifício tem zonas acessíveis ao público sem necessidade de bilhete, como a cafetaria, um auditório ou a enorme entrada, que é também um miradouro sobre zonas verdes de Madrid como os jardins do Campo del Moro e o parque da Casa de Campo.

Dentro do edifício há ainda grandes armazéns para albergar as obras de arte, com condições consideradas de vanguarda e ótimas para o armazenamento e conservação, em termos de espaço, temperatura e humidade, mas também em termos de transporte e movimentação das peças, algumas delas de enorme dimensão.

Estes armazéns serão também visitáveis, dentro de um programa de visitas guiadas e previamente programadas.

A construção do edifício demorou quase dez anos e obrigou a uma escavação e retirada de 235 mil metros cúbicos de terra de uma espécie de morro com um declive de 32 metros.

O resultado é um edifício com oito andares que não é visível do terraço e da praça de acesso ao Palácio Real e à catedral de Madrid, embora tenha entrada no mesmo local.

Durante a remoção de terras foram encontrados troços da muralha árabe do século IX ao XII, a que remonta a origem e Madrid, que foram preservados e podem ser vistos durante a visita à galeria.

O desafio e os imprevistos da obra – que obrigaram a criar uma estrutura de sustentação da catedral contígua face à remoção de terras – somaram-se aos habitualmente longos processos administrativos e burocráticos, à paralisação causada pela pandemia e a questões de ordem política para prolongar durante 25 anos a concretização do projeto.

A inauguração parece ser agora certa, embora com oito anos de atraso em relação ao anunciado, e a Galeria das Coleções Reais juntar-se-á à lista de grandes museus da capital espanhola, onde já estão o Prado, o Rainha Sofia e o Thyssen-Bornemisza.

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