Oliva prepara exposição de Jaime Fernandes após cedências de 4 países

 

A exposição anunciada para esse equipamento cultural do distrito de Aveiro intitular-se-á “Jaime Fernandes – Vi uma cadelinha minha com lobos” e vai reunir 43 desenhos do autor que, tendo dedicado a sua juventude ao trabalho rural, foi diagnosticado com esquizofrenia paranoide aos 38 anos, passou mais de três décadas internado no Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, em Lisboa, e revelou nos seus últimos seis anos de vida uma súbita produtividade artística.

Com sete inéditos, esta será a primeira vez que uma grande retrospetiva da obra de Jaime Fernandes fica disponível ao público após a exposição de 1980 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e resulta de um trabalho intensivo da Oliva na identificação de colecionadores dispersos por todo o mundo, já que, embora esse centro cultural disponha de duas obras do referido autor, houve que proceder a diversos contactos e apelos para que os restantes 41 desenhos pudessem juntar-se no mesmo espaço para “um momento especial”.

É assim que a diretora do Centro de Arte Oliva, Andreia Magalhães, descreve a exposição que contará com “desenhos que nunca foram vistos numa instituição artística antes”, já que, até à data, só tinham sido apreciados no hospital onde Jaime Fernandes os concebeu e na residência de privados aos quais as obras foram legadas após a sua morte.

É pelo esforço coletivo envolvido no projeto que a mesma responsável diz à Lusa: “Vamos realizar uma exposição que pode inscrever um capítulo especial na história da arte portuguesa”.

Na sua vertente nacional, a mostra contará então com duas obras da Coleção Treger Saint Silvestre (depositada na Oliva), quatro cedidas pela Gulbenkian, 20 disponibilizadas por diversos colecionadores privados e uma pelo Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa.

Já no que se refere aos contributos estrangeiros, serão enviadas para São João da Madeira cinco obras pertencentes a coleções particulares de França, outra detida por um privado na Áustria, oito que integram o fundo da Coleção de Arte Bruta de Lausana, na Suíça, e mais duas de coleções pessoais do mesmo país.

“Nos colecionadores estrangeiros encontrei uma disponibilidade imediata para se associarem ao projeto, porque todos eles são há muitos anos conhecedores e admiradores da obra do Jaime. No caso dos proprietários portugueses privados, a negociação foi mais demorada porque alguns têm com os desenhos um histórico pessoal que já vem dos seus familiares, conhecem estas obras desde a sua infância e, por isso, há ali uma ligação muito mais emocional”, declara Andreia Magalhães.

Todas as obras em causa serão sujeitas a procedimentos de restauro e conservação na própria Oliva, sendo que do catálogo de “Vi uma cadelinha minha com lobos” constarão ainda as reproduções de oito desenhos que, sendo propriedade de um colecionador francês, acabaram por ficar indisponíveis para São João da Madeira devido à requisição dessas obras para o Centro Georges Pompidou, em Paris.

Ainda assim, feitas as contas, a seleção reunida para a mostra e o catálogo da Oliva materializa um maior conhecimento sobre as obras identificadas de Jaime Fernandes, já que, até ao presente projeto, “só estavam localizadas 11 criações desse autor em Portugal e 25 no estrangeiro”.

Andreia Magalhães adianta que todos os desenhos a exibir, executados sobretudo a esferográfica sobre papel e cartão, revelam detalhes sobre o pensamento do seu autor, o que inclui desde referências às suas memórias da Beira Baixa, angústias sobre a clausura hospitalar e cenários particulares despertados pela sua demência.

Um desenho em destaque na exposição será o intitulado “Cobrões, Cobrôas, Serpentes, Serpentões e Serpentôas” (1963), que é um dos poucos com um descritivo no verso, anotado pelo enfermeiro de Jaime Fernandes com base na narrativa por ele enunciada.

A propósito de serpentes e de um dilúvio, um excerto dessa legenda refere: “Tinha 30 metros de comprido, cheio de água e de lodo. A mãe Conceição andou a ver de mim; encontrei-a e ela a fazer-me festas, e eu engoli-a inteira com fato, sapatos e tudo, e ela matou-me. Virei-me para ela e fiquei doido, e ela aprendeu a compor-se; ficou melhor do que todos os outros do maquinismo da cabeça com o lodo agarrado na moleirinha”.

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