‘Os homens também choram’. O livro que rompe as amarras da masculinidade

Depois de dar voz a mulheres que tiveram cancro na gravidez e de se ter sentado ‘à mesa’ com conceituados chefs, o autor Nelson Marques embarcou numa nova aventura e desafiou o modelo tradicional da masculinidade. ‘Os homens também choram’ é o mais recente livro do também jornalista do Expresso. 

Em 2017, Nelson Marques estreou-se enquanto autor ao publicar o livro ‘Filhos da Quimio’. A ‘semente’ estava plantada e pouco tardou até que o jornalista editasse a segunda obra: ‘Chefs sem Reservas’. 

Em declarações ao Notícias ao Minuto, confessa agora que na génese deste terceiro livro está um “vício”, uma ânsia de dar ‘palco’ a novas histórias e novas personagens. “Nunca fumei, não bebo, não tomo drogas. Costumo dizer que só tenho um vício: contar histórias. Porque depois da euforia de um livro, instala-se depressa a necessidade visceral de escrever outro”, assume. 

Enquanto jornalista, Nelson Marques assume-se como um “mensageiro”, fazendo com que as histórias que traz às ‘luzes da ribalta’ “ganhem vida. O que tento fazer é tirar da sombra temas que acho que merecem mais atenção. Tornar visível o invisível”. 

Com efeito, neste livro com a chancela da Fundação Francisco Manuel dos Santos, o autor narra histórias da nova masculinidade, desafiando o modelo tradicional. Questionado quanto aos paradigmas em que assenta este modelo, Nelson Marques destaca, precisamente, “a ideia de que os homens não choram, não expressam as suas emoções, não se mostram vulneráveis, não pedem ajuda”. 

O modelo tradicional da masculinidade define o homem como “forte, viril, corajoso, dominante, um líder. São estas ideias que vão sendo perpetuadas. Os investigadores que estudam as questões da masculinidade realizam um exercício, chamado ’A caixa da masculinidade’, onde pedem a grupos de homens e de rapazes que indiquem as palavras que descrevem o que é para eles ser homem”, revela. 

Não se nasce dentro da caixa, é a sociedade que condiciona os homens (e também as mulheres) a comportarem-se de certa forma

Ora, as respostas passam por “expressões como “forte”, “bem-sucedido”, “duro”, “autossuficiente”, “chefe de família”, “líder” ou “sempre pronto para o sexo”. E estas repetem-se com frequência, mostrando que há uma mentalidade que é aprendida. Não se nasce dentro da caixa, é a sociedade que condiciona os homens (e também as mulheres) a comportarem-se de certa forma”.

O paradigma da masculinidade condiciona não apenas “os homens ao longo de toda a sua vida, isolando-os física e emocionalmente, com resultados que são desastrosos”, mas tem igualmente reflexos nas mulheres. “Há uma ligação direta entre este pensamento que coloca o homem como superior à mulher e os números trágicos da violência doméstica”, advoga Nelson Marques. 

Mais ainda. No entendimento do autor, esta “pressão para corresponder às expectativas da masculinidade tradicional é também nefasta para os próprios homens. O silêncio emocional a que muitos homens se remetem está literalmente a matá-los. Mais de sete em cada 10 pessoas que decidem pôr fim à vida em Portugal são homens. A sua esperança média de vida é, em média, seis anos inferior à das mulheres. São mais propensos ao consumo excessivo de álcool e drogas, morrem mais devido a comportamentos de risco, isolam-se mais. É por isso que é tão importante escrever um novo guião da masculinidade”. 

Os ‘rostos’ que lutam pela mudança 

Em ‘Os homens também choram’, Nelson Marques destaca a história de Ricardo Mellado, que põe os homens a tricotar contra estereótipos e a de Diogo Faro, que criou o movimento antimachista ‘Não É Normal’. 

Mas há mais. Tiago Rolino deixou a advocacia em prol da igualdade de género, Ângelo Fernandes fundou um porto de abrigo para vítimas masculinas de violência sexual, Flávio Gonçalves e Jonathan Israel abriram um espaço de discussão entre homens sobre o papel que têm na sociedade, e o judoca Célio Dias derruba mitos sobre a masculinidade. 

O critério para selecionar estas ‘vozes’, confessa, “foi muito simples”, já que estas são ‘personagens’ “envolvidas em projetos que abrem caminhos para promover formas de masculinidade mais diversas e inclusivas, e que se envolvem ativamente na luta pela igualdade de género, como as Men Talks, a associação Quebrar o Silêncio, os encontros ‘O Homem Promotor da Igualdade’ ou o movimento ‘Não É Normal’”.

“Quero definitivamente ser parte da solução”

Não se revendo no papel de ativista, Nelson Marques defende que “as escolhas que fazemos podem reforçar a injustiça, o preconceito ou a exclusão ou, ao invés, podem ajudar a construir um mundo melhor, onde todos possamos ser mais felizes”. E é neste caminho que o autor se quer afirmar: “Quero definitivamente ser parte da solução, não do problema”. 

Derrubar a cultura sexista é, todavia, um longo caminho e para o demonstrar o jornalista recorda que, há mais de 100 anos, em 1915, “uma escritora nova-iorquina escreveu um artigo numa revista cujo título era: ‘Feminismo para homens’. Começava assim: “O feminismo tornará possível, pela primeira vez, que os homens sejam livres”. Passado mais de um século, a profecia continua por cumprir. E não creio que aconteça tão cedo”. 

‘Os homens também choram’© DR  

Assim, o desafio do século XXI passa, aos olhos do jornalista, por “construir um mundo mais justo e igualitário, quebrando o ciclo da desigualdade de género e da violência e da opressão das mulheres”. Porém, acrescenta, “a libertação das mulheres não se fará sem que os homens se libertem também das amarras que os aprisionam em ideais de masculinidade que são obsoletos. A revolução feminista só será possível se revolucionarmos também o que significa ser homem e o lugar do homem na sociedade. São duas faces da mesma moeda”. 

Questionado sobre o futuro da masculinidade, Nelson Marques começa por se assumir como um “mau futurologista”, mas espera que “os homens se sintam mais confortáveis para se mostrarem sensíveis ou vulneráveis, sejam mais ligados às suas emoções, mais participativos nas tarefas domésticas e de cuidado da família, mais ativos na luta por uma sociedade mais justa e igualitária”. 

Considerando que, hoje, estamos “melhor” do que “no tempo dos nossos pais ou dos nossos avós”, o autor acredita que “daremos mais passos na direção certa nos próximos 10, 20 anos”, mas não é otimista “ao ponto de achar que teremos percorrido todo o caminho” nessa altura. 

E à pergunta se também chora, o autor responde: “Claro que choro. Emociono-me com cada vez mais facilidade. Quando me despeço dos meus sobrinhos que vivem na Holanda, por exemplo. Ainda escondo a cara para que não me vejam chorar, mas vou deixar de fazê-lo. É importante que saibam que não há mal nenhum em emocionarem-se”. 

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