Pintura de Goya em Cascais revela olhar sobre a sociedade do seu tempo

Dez pinturas serão apresentadas pela primeira vez em Portugal, juntamente com quatro séries de gravuras do mestre espanhol, na exposição “Francisco de Goya, testemunho do seu tempo”, que é inaugurada no sábado e abre ao público no domingo, anunciou hoje a organização.

A mostra — que estará patente até 09 de julho — é uma iniciativa da Fundação D. Luís I e da Câmara Municipal de Cascais, no âmbito da programação do Bairro dos Museus.

Além destas obras inéditas no país, serão apresentadas as séries de gravuras “Os Caprichos”, “A Tauromaquia”, “Os Desastres da Guerra” e “Os Disparates ou Provérbios”, em dois pisos do Centro Cultural de Cascais.

Considerado um dos mais importantes artistas espanhóis do século XVIII, e precursor da Arte Moderna pelo caráter inovador da sua obra, Goya inspirou correntes artísticas que surgiriam nos séculos seguintes, do Romantismo ao Surrealismo.

As curadoras Maria Toral e Maria Oropesa fizeram uma seleção que propõe um percurso pelos temas mais importantes da obra gráfica e pictórica de Francisco de Goya, para evidenciar a forma como “abriu portas a um novo conceito de arte”.

“O artista como testemunha do seu tempo que, imbuído de um profundo sentido de liberdade, é capaz de expressar o seu liberalismo político, as suas opiniões sobre temas como a religião e as instituições, o seu fascínio pelas mulheres e a força emocional da família, amor e luxúria, o desagrado pela opressão intelectual e a aversão à guerra, refletindo, o período de convulsões políticas e transformações sociais em que viveu”, refere uma nota da curadoria.

Seis das pinturas formam a série “Jogos Infantis”, produzidas entre 1775 e 1786, em que Goya retrata cenas da vida quotidiana e as brincadeiras de um grupo de crianças.

As obras pertencem à Coleção da Fundación de Santamarca y de San Ramón y San Antonio, com sede em Madrid, Espanha.

Nos detalhes destas obras, é possível observar como Goya testemunhou a sociedade do seu tempo, chamando a atenção para as desigualdades sociais da época: por exemplo, em “Crianças no Baloiço”, o pintor retrata algumas crianças vestidas com uniformes escolares impecáveis, que contrastam com as roupas esfarrapadas que outras crianças da mesma idade.

Destacam-se ainda duas obras que pertencem ao Museu Goya — Coleção Ibercaja, uma intitulada “Baile de Máscaras” (c. 1808-1820) e o estudo para “O Dois de Maio de 1808 ou A Carga dos Mamelucos” (1814), uma das suas obras-primas, hoje parte da Coleção do Museu do Prado, em Madrid.

Os outros dois quadros são pinturas religiosas que Goya produziu na primeira fase da sua carreira, quando viveu e trabalhou em Saragoça, sendo relevantes porque testemunham tanto os seus primeiros passos como a sua consolidação enquanto artista, explica o texto das curadoras.

Durante muitos anos pintor oficial da Família Real Espanhola no reinado de Carlos IV, Goya foi também um cronista das questões sociais e das guerras do seu tempo, como evidenciam as suas quatro séries de gravuras que o Centro Cultural de Cascais apresenta, três delas na totalidade.

Produzidas a partir da década de 1790, um período especialmente turbulento na vida do artista em que uma doença não identificada o deixou surdo, as gravuras são também a resposta do artista à grande convulsão política e social a que assistiu durante a Guerra Peninsular, travada por Napoleão Bonaparte contra Espanha e Portugal.

A sequência é iniciada com “Os Caprichos”, de 1799, onde o artista satiriza os excessos da sociedade do seu tempo numa série de 80 gravuras sobre vícios e defeitos, religião, moralidade, superstição, bruxaria e a Inquisição católica, incluindo “O Sonho da Razão Produz Monstros”.

Embora não tenham circulado muito tempo — Goya retirou-os de venda devido ao receio de se tornar ele próprio alvo da Inquisição — “Os Caprichos” tornaram-se a sua obra mais conhecida e influente, segundo as curadoras.

O segundo conjunto de gravuras apresentado é “Os Desastres da Guerra”, uma série de 85 imagens feitas entre 1810 e 1820 que retratam as atrocidades e as consequências da guerra que testemunhou, e compõem por si só uma crítica reflexão social e política.

No mesmo período, aos 70 anos, Goya produziu a terceira série, intitulada “A Tauromaquia”, sobre a história e a tradição das touradas em Espanha.

A exposição termina com a apresentação de treze gravuras que fazem parte de “Os Disparates ou Provérbios” (1815 — 1824), a última série produzida por Goya, e que são consideradas as mais enigmáticas das suas composições.

A exposição no Centro Cultural de Cascais ficará aberta ao público de terça-feira a domingo, das 10:00 às 18:00.

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