Português cria espetáculo de magia sobre emigração e 25 de Abril

“Como se vai celebrar os 50 anos da revolução de abril fez muito sentido para mim que isso fizesse parte do espetáculo”, disse à Lusa o ilusionista, que está agora a escrever o guião para o espetáculo de magia que estreará na Geffen Playhouse no próximo ano. 

“Sou a primeira pessoa na minha família a nascer depois do 25 de abril”, indicou, traçando o contraste com as pessoas que “não tiveram as mesmas oportunidades porque eram de outra geração” e viveram num período de ditadura.  

“Essa revolução e essa abertura fizeram com que eu tivesse as oportunidades que tive e a carreira que tenho”. 

Radicado em Los Angeles há 12 anos, Helder Guimarães quis espelhar neste novo espetáculo a sua experiência como emigrante português na América num contexto pós-25 de Abril e a forma como isso moldou a sua vida. 

“É uma emigração muito diferente daquela que existia de Portugal antigamente, de uma geração não qualificada que ia à procura de melhores condições de vida dentro de uma redoma que não os deixava crescer muito”, considerou. 

Mesmo com qualificações, Helder Guimarães teve de superar muitos obstáculos para construir a carreira como ilusionista e chegar ao sucesso que tem hoje, com vários espetáculos esgotados ao longo dos últimos anos. 

“Se tivesse de fazer uma metáfora em relação aos aspetos que vão ser falados da emigração, é mesmo colocar as cartas na mesa”, descreveu. “Há muita gente nos Estados Unidos que, por muito boas intenções que tenha, não faz a mínima ideia do que é preciso para viver legalmente na América e conseguir sobreviver”. 

“The Hope Theory” será uma revisão daquilo por que passou com histórias pessoais de dificuldades e injustiças, na qual refletirá sobre a forma como se desvalorizam as pessoas que vêm de outro país “que elas às vezes nem sabem onde está no mapa”. 

Guimarães falou de um certo padrão de invisibilidade dos emigrantes na América. “Parece que não te veem”, disse. “Quando é preciso fazer um trabalho que ninguém quer fazer, a primeira ideia que têm é que emigrantes da América Latina fazem isto. Para tudo o resto, parece que os emigrantes são corpos invisíveis que estão ali”. 

O espetáculo estará em cena um mínimo de sete semanas com possível extensão de mais quatro ou cinco, à semelhança do que aconteceu com os anteriores. 

Haverá também uma versão em espanhol, o que marcará a primeira vez que a Geffen Playhouse apresenta um espetáculo numa língua que não o inglês. É algo que Helder Guimarães considerou apropriado dada a dimensão da comunidade de origem hispânica em Los Angeles e o tema da emigração. 

“Aquilo que vou contar são muitos episódios que me aconteceram”, disse. “A minha ideia é que as pessoas consigam perceber algumas das dificuldades e barreiras que tive ao longo destes anos”.

O espetáculo vai ser encenado pelo realizador Frank Marshall, continuando uma colaboração que teve bons resultados em produções anteriores. 

“Vai haver aqui uma série de temáticas cruzadas, até porque estamos numa altura politicamente muito interessante a nível global, onde a extrema-direita está a crescer”, sublinhou. “É sempre bom recordar aquilo que já existiu”, referindo-se à ditadura que terminou com Abril. 

O título do espetáculo refere-se à Teoria da Esperança de C.R. Snyder, segundo a qual são precisas três coisas para ter esperança: um objetivo concreto, acreditar que se consegue atingi-lo pela ação e perceber que há várias formas de o atingir. 

“Vou falar da ideia do que a esperança é e como acho que é importante quando se toma uma decisão drástica na vida”, explicou Guimarães. 

Foi isso que lhe permitiu superar os obstáculos quando chegou aos Estados Unidos, sem contrato nem forma de sobreviver mais do que seis meses, deparando-se com a indiferença de muitos na indústria. 

“Tive episódios de pessoas a dizerem-me claramente que os americanos não querem saber de estrangeiros”, lembrou. “Há um mecanismo quase defensivo que a maior parte dos americanos têm e às vezes nem percebem que o têm”, continuou. 

“A parte irónica é que, a não ser que sejam indígenas, os americanos são todos emigrantes”, frisou. “É engraçado como há essa falta de empatia”. 

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