Primeira obra de José Luiz Tavares em cabo-verdiano chega no verão

 

“Estou a finalizar uma grande obra escrita direta e integralmente em língua cabo-verdiana, a primeira que assim escrevo, e que deverá ser editada ainda este verão”, disse José Luiz Tavares, numa entrevista por escrito à agência Lusa.

A obra contará também “com recriações visuais” do artista plástico cabo-verdiano Tchalê Figueira.

“Espero, [que] venha a ser uma bomba política e cultural, e mais não posso avançar”, adiantou.

O escritor e poeta cabo-verdiano falava à Lusa a propósito do lançamento da “Odi Marítimu”, do heterónimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, que traduziu para língua cabo-verdiana e cujo lançamento está marcado para terça-feira, em Lisboa.

Para 2022, ano em que fará 55 anos, anunciou o lançamento do seu “textamento” poético, “um terno, quezilento e sulfuroso texto, escrito, em português, durante o primeiro confinamento” e traduzido para a língua cabo-verdiana.

Além destas obras, José Luiz Tavares tem também “entre mãos” a tradução e organização “de uma grande antologia” dos poemas de Álvaro de Campos, onde a “Ode Marítima” terá uma nova versão, e que deverá sair no outono.

“Assim que a antologia estiver fechada devo avançar para a tradução do ‘Discurso Sobre o Filho da Puta’, tão instrutivo e tão atual, do meu velho professor e vivo mestre, Alberto Pimenta, e lá mais para a frente pegar no ‘Livro do Desassossego’, de Bernardo Soares, e ainda retomar a adaptação da ‘Odisseia’ para cabo-verdiano, que está estagnada há meia dúzia de anos no Canto X”, revelou.

O poeta diz ter um “projeto particular” de tradução para língua cabo-verdiana para os próximos dez anos que espera cumprir, apesar da falta de tempo e alguma dificuldade de meios.

“Existem programas de financiamento, mas falta-me um editor que queira concorrer a esses programas. O meu editor atual não tem capacidade para tudo, já faz muito, até mais do que as próprias autoridades competentes do meu país. O que eu consigo fazer é roubado ao tempo de criação da obra própria, nos intervalos das labutas para que não faltem o pão e o leite”, disse.

O escritor, que considera o cabo-verdiano como a verdadeira língua oficial de Cabo Verde, defende a sua “oficialização plena e em paridade com a língua portuguesa oficializada” e critica a “atuação negligentemente criminosa” das autoridades do país, passadas e atuais, nesta matéria.

“Gostaria que […]o governo do meu país tivesse um programa de enquadramento para a tradução de grandes clássicos doutras línguas, mas esta deve ser uma ilusão da minha cabeça”, disse.

“De um governo que eliminou criminosamente os bem-sucedidos programas experimentais de ensino bilingue que decorriam em diferentes regiões do país, e com perspetivas de serem alargados, e que quando comunica em cabo-verdiano por escrito fá-lo numa garatuja clandestina, violando as suas próprias leis e resoluções soberanas, nada de positivo, no que concerne à língua cabo-verdiana, se deve esperar”, criticou.

José Luiz Tavares nasceu a 10 de junho de 1967, no Tarrafal, ilha de Santiago, em Cabo Verde, e estudou literatura e filosofia em Portugal, onde vive.

Publicou o seu primeiro livro “Paraíso Apagado por um Trovão”, em 2003, tendo sido distinguido desde então com vários prémios literários, incluindo o Prémio Mário António de Poesia 2004, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian, e o Prémio Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM)/Vasco Graça Moura (2018) pelo seu trabalho “Instruções para Uso Posterior ao Naufrágio”.

Publicou, entre outros, os livros ‘Agreste Matéria Mundo’ (2004), ‘Lisbon Blues seguido de Desarmonia’ (2008), ‘Cabotagem&Ressaca’ (2008), ‘Cidade do Mais antigo Nome’ (2009), ‘Coração de lava’ (2014), ‘Contrabando de Cinzas’ (2016), ‘Polaróides de Distintos Naufrágios’ (2017) e ‘Rua Antes do Céu’ (2017).

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