Romance vencedor do Prémio Leya entre memórias de infância e superação

Publicado aos 74 anos, este livro, vencedor do Prémio Leya 2022, foi o seu primeiro romance, no sentido mais estrito, já que anteriormente Celso Costa, matemático de vocação e formação, publicara um livro de ficção matemática, de pouca circulação e dirigido a esse público específico.

Trata-se do primeiro volume das suas memórias ficcionadas, uma história protagonizada por um menino – o autor na infância — passada numa povoação do Paraná, onde a escola oficial não vai além dos primeiros anos e onde a maioria das pessoas não passou do ensino básico, refletindo aquele que é o mundo social do interior do Brasil, contou o escritor, em entrevista à agência Lusa, numa passagem por Lisboa.

Nascido numa fazenda, no seio de uma família que se vê constantemente em dificuldades, é incentivado a prosseguir os estudos por uma professora primária e acaba por alimentar o sonho de se tornar professor e romper com o destino que lhe estava reservado.

Esta história “é a sua trajetória pela cidade, buscando sempre conhecimento, porque o conhecimento é que era o farol na estrada, orientando a sua trajetória”.

“Os [meus] quatro primeiros anos de escola têm muita referência em relação ao livro. Uma cidade muito pequena, nos anos 1960, uma rua única de chão de terra, vermelho, o conforto era a eletricidade, porque televisão não existia e mesmo as geladeiras eram a querosene”, recordou.

A história começa com a instalação de um espetáculo de tourada na cidade, mas perante o desaparecimento do toureiro, e à falta de voluntários, é o pai do protagonista que salta para dentro do picadeiro, com o filho a assistir.

“O personagem tem cinco anos. Os especialistas em narrativa dizem que você tem que pegar um gancho bom para poder segurar o leitor logo no inicio da narrativa. Achei que a tourada era bom”, contou.

Este episódio é “uma narrativa da memória”, aconteceu mesmo e era muitas vezes relatado pelo pai do autor, um “grande contador de histórias”, influência fundamental para que Celso Costa alimentasse desde muito cedo o gosto pela leitura, recorrendo à parca biblioteca local.

A história recua então um pouco, até aos três anos do protagonista, onde entram em cena as “proto lembranças”, ou seja, as memórias criadas a partir de histórias contadas pelos familiares, para depois progredir até aos seus 19 anos.

Os pilares desta narrativa são a educação e a superação, porque foi deste modo que o autor e o seu protagonista conseguiram ultrapassar a barreira da pobreza e da falta de escolaridade.

“A minha família era muito simples. A minha mãe era analfabeta e o meu pai escrevia muito pouco, e desde a tenra infância, eu já trabalhava em todos os ofícios”.

Depois de terminar os quatro anos do ensino básico, Celso Costa mudou-se com a família para uma cidade maior, onde encontrou uma biblioteca com mais livros, fez os estudos secundários e conheceu a maior parte das personagens que povoam o seu livro, como um coveiro manco que espantava as crianças, um padre que queria ditar as regras e censurava as películas do cinema, e todos os bêbados que desfilam pela história.

Nessa cidade continuou sempre a trabalhar: “Trabalhei em lavouras de café, colhendo algodão… saía de manhã com a comida na marmita – chama-se boia fria, porque quando chega a hora do almoço a comida está fria -, voltava à tarde e à noite ia para a escola estudar”.

Dessa biblioteca, recorda o primeiro livro que leu “realmente: Foi um livro de um escritor chamado Mário Palmério, ‘Vila dos confins’. Até hoje tenho na minha mente essa capa, apesar de ter 12 anos, e continua a ser uma referência”.

Mas se Celso Costa gostava de ler, a sua “paixão pela matemática era mais contundente” e foi aos 11 anos que viu uma equação que lhe “deu um nó na cabeça”, porque não sabia “como é que aquilo podia funcionar”.

“Então fui perguntar para a professora por que aquilo acontecia e ela disse ‘você pode ser um engenheiro’, e eu fui para casa pisando em nuvens. Quando cheguei lá, falei para minha mãe que a matemática gostava de mim”.

A partir daqui, o percurso pela matemática foi sendo feito sempre com notas máximas, a par das leituras que ia mantendo, mergulhando gradualmente nos mundos de Mário Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Júlio Cortázar, Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Marquez ou do incontornável clássico de Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”.

Depois de ingressar na faculdade, e de erradamente ter escolhido engenharia e depois medicina, acabou por se formar em matemática pura e aplicada, onde o seu brilhantismo se confirmou quando, na tese de doutoramento, sobre geometria diferencial, conseguiu resolver um problema matemático com 206 anos de existência.

“Esse problema deu origem à superfície mínima, a que hoje o mundo matemático se refere como Superfície Costa”, ou Costa’s Surface.

A passagem da matemática para a escrita deu-se perto da idade de se reformar como professor do ensino universitário.

Aposentado desde os 72 anos, Celso Costa decidiu, seis anos antes, que se iria dedicar a aprender literatura e, nesses quatro anos seguintes “trabalhou fortemente”, assistiu a palestras em que os “grandes mestres” da literatura diziam quais as regras, fez cursos de escrita criativa e escreveu então o primeiro livro, “A vida misteriosa dos matemáticos”.

Para explicar esta incomum coexistência de gosto e jeito para números e letras, Celso Costa recorre a uma “frase muito interessante” que certa vez um amigo lhe disse.

“Ele compara a matemática com a língua materna, que são para nós duas coisas universais: a matemática é genuinamente uma linguagem universal, e a nossa língua materna é a nossa língua universal, no universo português. Eu acho que, nesse sentido, são duas coisas muito parecidas, se dominas o modo de funcionar”.

Sobre a escrita de “A arte de driblar destinos”, o autor conta que “foi um livro que ficou amadurecendo durante quatro anos”.

“Mas os primeiros passos foram do seguinte modo: eu contava para um gravador a história, porque eu vinha com uma dicção oral. Se prestarmos atenção no livro, é um pouco como se estivéssemos na beira de um fogo e muitas pessoas contando histórias. Tem uma estrutura de mosaico. É como se estivesse encaixando peças num grande panorama”.

Então, Celso Costa, rememorando, contava pequenos trechos da história durante cerca de 20 minutos, normalmente com alguém a ouvir — a mulher, um filho, um colega ou um amigo — “e, evidentemente, na maioria das vezes, tinha também um copo de vinho para ajudar o afloramento das emoções”.

Depois da história toda gravada, pagou a estudantes universitários para a transcreverem e, “com essa matéria-prima”, começou “a montar o mosaico”.

A obra pronta foi submetida ao concurso do Prémio Leya e venceu, notícia que apanhou o autor de surpresa numa manhã cedo de outubro, um mês de “nuvens negras”, pouco antes da segunda volta das eleições presidenciais do Brasil, com o “perigo da reeleição de Bolsonaro”.

Publicado em maio, “A arte de driblar destinos” chegará ao Brasil no próximo ano, pela editora Fósforo.

O segundo livro destas memórias ficcionadas, já está 80% escrito, uma vez que, segundo o autor, tinha de o terminar logo após concluir o primeiro, porque tudo o que escreveu num, reflete-se no outro.

Para os títulos dos romances, pegou nos “dois pilares do imaginário brasileiro: o drible é um pilar, do futebol; agora o novo livro vai chamar-se ‘A geometria do chapéu do sambista’, que é o samba, o carnaval”.

No prelo estão outros dois livros que estão já meio escritos, um deles, dirigido aos alunos do ensino básico, sobre uma menina que ganha olimpíadas da matemática, e outro sobre a revolta da vacina no Rio de Janeiro em 1900, adiantou.

“Então, eu tenho assunto para trabalhar durante uns cinco anos”.

Leia Também: Porto acolhe encontros sobre cinema português para pôr o setor a debater

Deixe um comentário