"Só Eu Tenho a Chave Desta Parada Selvagem" apresentado nos Dias da Dança

O título é de um poema de Arthur Rimbaud e o mote central, segundo a sinopse, um ensaio da “Sagração da Primavera”, de Igor Stravinsky, para uma criação que Mónica Calle estreou na Áustria e agora é apresentada no Porto, no Palácio do Bolhão.

“Quando escolhi este título era, de alguma forma, para que todos tivéssemos a consciência de que cada um de nós tem a chave de uma parada selvagem que, no fundo, é a vida”, contou, em entrevista à Lusa.

A nova criação prossegue a relação entre música, corpo e tempo, após “Ensaio para uma Cartografia”, de 2017, seguindo a linha sobre “o tempo, a duração”, e ir “descobrindo o que é o novo projeto em cada uma das etapas”, convocando os ‘performers’ e novos intérpretes para a reflexão e trabalho.

“De alguma forma, o trabalho agora que vai ser feito, que vai estrear[-se] no Porto, é bastante distinto daquele que apresentámos em Viena”, refletiu a atriz, exemplificando o efeito do tempo e do trabalho conjunto no produto final.

A iniciativa, que começou a ser preparada na última década, com interrupções e outros trabalhos pelo meio, começou no final de 2021 e passou por várias oficinas e audições.

Paralelamente, levantou a questão da pressão exercida sobre “quem cria” de que “é preciso estar sempre a fazer coisas novas e diferentes”, alertando para o perigo da mesma e revelando que nunca acreditou nesse conceito.

“Acredito que o trabalho tem mesmo a ver com o tempo, com a duração, com os anos, com a inexistência, com a repetição e, é dessa maneira que se vai encontrando, de alguma forma, algo mais sério, mais profundo, e isso é válido, acho, para quase todos os criadores, embora a pressão seja sempre no sentido contrário de fazer e deitar fora e de voltar a fazer e deitar fora. […] Este trabalho, e os outros todos, são uma forma de resistência a essa velocidade, esse desperdício, no fundo, à velocidade de que nada permanece, nada é consequente”, contou.

Em palco estarão, ao longo de pouco mais de duas horas, Afonso Gaspar, Antón L. Yanguas, Gonçalo Egito, Djamilson Barreto, Guilherme Barroso, José Miguel Vitorino, Kosma Bresson, Luís Elgris, Miguel Ferrão Lopes, Peter Tilajcik, René Mussenga Vidal, Rui Dias Monteiro, Tiago Mansilha e Victor Gonçalves.

Mónica Calle afirmou que não escolheu, especificamente, bailarinos, com a intenção de juntar em palco “vários corpos”, com “características muito distintas”, para que as pessoas se pudessem rever “nesse lado mais humano”.

“Há aqui também uma representação. Não são corpos ideais, não são corpos de bailarinos. [Há] idades muito distintas, com formações muito distintas”, explicou.

O encontro, para o público, é “de uma forma pessoal, mas também universal”, com a “vitalidade” subjacente à vida e ao tempo, encontrando “esperança, resistência, fragilidade, fé, medo, também, frustração e consciência da nossa finitude”.

“Não como uma coisa negativa, mas como algo com uma dimensão que me parece fundamental, para vivermos a vida com vitalidade. Temos de ter a consciência da nossa finitude”, reforça.

“Só Eu Tenho a Chave Desta Parada Selvagem” sobe ao palco do Palácio do Bolhão, no Porto, pelas 21:30 de quinta e sexta-feira.

A estreia mundial do espetáculo, para maiores de 16 anos, aconteceu em junho de 2022 no âmbito do festival Wiener FestWochen, em Viena, na primeira estreia fora de Portugal de Calle e da companhia Casa Conveniente.

O festival DDD decorre até domingo no Porto, em Vila Nova de Gaia e Matosinhos, com um total de 28 espetáculos apresentados desde o início, muitos deles em estreia nacional, entre obras de apresentação convencional e um programa, Corpo + Cidade, pensado para o espaço público e de entrada livre.

O DDD agrega mais de seis dezenas de artistas ou companhias, de nove países diferentes, com nomes como Faye Driscoll, Emmanuel Eggermont, Tânia Carvalho, Sofia Dias e Vítor Roriz e Gaya de Medeiros no programa.

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