Sudão. Há arte que escapou à guerra e pode ser vista em Lisboa

Depois veio a destruição, “os cadáveres nas ruas, os saques loucos e vandalismo, os perigos e a falta de alimentos, a falta de hospitais a funcionar, a falta de todo o tipo de fornecimentos, o colapso do sistema bancário”, contou Rahiem Shadad, sudanês e um dos curadores da exposição, com base nos relatos que recebe de Cartum.

As três dezenas de obras, de nove artistas sudaneses, são, nalguns casos, as poucas que restaram do trabalho que estes desenvolveram nos últimos anos, revelaram Shadad e António Pinto Ribeiro, o outro curador da exposição “Disturbance in the Nile”, em declarações à agência Lusa.

Rahiem Shadad, dono de uma galeria no bairro que reunia a maior parte delas e dos ‘ateliers’ de artistas em Cartum, saiu do Sudão com a família no final de março para o que, pensava, seriam umas férias de duas semanas no Egito, mas a guerra começou e não puderam voltar, permanecendo até agora no Cairo.

Esse bairro, por estar situado próximo do palácio presidencial e não longe do perímetro do aeroporto, foi dos primeiros a ser alvo dos ataques que opõem, desde 15 de abril, as milícias das Forças de Intervenção Rápida (RSF, na sigla em inglês) ao exército sudanês.

“Desde então, esses artistas, galeristas e todos os que trabalham na cena artística não puderam aceder àquela área”, explicou, adiantando que a 24 de abril teve informação de que um prédio ao lado da galeria estava em chamas e depois recebeu outro relatório, “em meados de maio, dizendo que não há uma única casa segura” naquela área da cidade, “que tudo foi ou destruído ou saqueado, vandalizado”.

“É difícil de imaginar. É muito mau”, disse, sublinhando que não era da guerra que pensava que iria falar quando a sua Downtown Gallery e a Brotéria, em Lisboa, onde a exposição decorre até 28 de julho, começaram a prepará-la há quase uma anoa e meio.

Acabou por ser uma sorte, já que muitas das obras que ali estão são das poucas que restam aos nove artistas, que entretanto fugiram para o Egito, para Espanha, ou para regiões do Sudão mais afastadas das zonas de combate.

“As últimas obras saíram na véspera do inicio dos combates. Se fosse um dia depois, não acontecia”, referiu António Pinto Ribeiro, que destacou na entrevista à Lusa a “extraordinária” fase de produção artística de Cartum.

As obras são de artistas de três gerações, com idades desde os 20 anos aos 70 anos, e considerados testemunhas de uma fase de grande mudança na história moderna do Sudão, explicou ainda Pinto Ribeiro, sublinhando que é isso que esta exposição quer mostrar ao mundo: “um trabalho de referência”.

“Não planeámos falar da guerra”, insistiu também o galerista sudanês, descrevendo que o nome dado à exposição é porque o objetivo era e continua a ser “dar às pessoas uma história sobre como tem sido a expressão no Sudão” ao longo da sua história de uma forma “muito contemporânea” retratada nestas telas.

“A cena artística no Sudão era muito florescente. Estava a crescer a uma escala exponencial”, com “três galerias abertas no ano passado. Podiam visitar-se exposições temporárias em todo o país” e os artistas que conseguiram escapar á guerra estão já muitos a conseguir voltar a produzir, disse Rahiem Shadad.

“Esta exposição pode aparecer como uma coisa exótica, mas na verdade não é”, é uma produção artística rica que, não sendo propriamente desconhecida na Europa, tem algumas singularidades impediram a sua divulgação, desse logo o estado de conflito durante décadas, enfatizou Pinto Ribeiro.

Depois de Lisboa, estes quadros que escaparam à guerra no Sudão vão estar em Berlim, em novembro, e o objetivo para já é que passem também pelo menos por Madrid e Paris.

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