"Tudo o que sou está refletido nas minhas canções"

É um nome cada vez mais incontornável da música portuguesa. O cantor e compositor Dino D’Santiago, de ascendência cabo-verdiana, tem vindo a ser capaz de aliar as sonoridades características do universo africano às particularidades da música eletrónica de um modo especial – o que lhe tem valido, nos tempos recentes, um crescente reconhecimento no país e além-fronteiras.

Na quarta-feira, viria a concretizar um objetivo que tinha já definido há vários anos: atuar no NOS Alive, tal como confidenciou em entrevista ao Notícias ao Minuto durante o evento. Este tratou-se de um momento que, nas palavras do artista, marca “um antes e um depois” na sua carreira – embora diga não ter quaisquer expetativas sobre aquilo que está para vir.

Para além de músico, a verdadeira identidade de Dino é indissociável de outras duas vertentes, bem presentes na sua vida: o ativismo e a paternidade. Nesta entrevista, realizada no recinto do NOS Alive, falámos sobre estes temas e sobre muitos outros, nomeadamente sobre o impacto que a pandemia teve no seu processo criativo e sobre a “empatia” que tem recebido de várias partes do mundo.

Nunca fico nervoso quando vou para o palco. Fico apenas extremamente ansioso, porque visualizo tanto o que vai acontecer que fico num estado de inundação tal que depois tenho de esbanjar

Este foi o seu primeiro concerto aqui no NOS Alive. O que é que isso significa?

Quando nós começámos a desenhar este novo caminho, em que casei o tradicional com a música eletrónica, a meta era o NOS Alive. Isto em 2016. Tudo o que aconteceu até aqui, e que nós já sentimos que foi maravilhoso, para mim foi apenas um estágio. Para mim, há um antes e um depois deste concerto. O depois não sei como vai ser, prefiro focar-me apenas no que acontece em palco. Acho sempre que vou ser recebido com todo o amor e que vou transbordar todo esse amor em retorno. 

As suas origens têm uma grande influência sobre aquela que é a sua identidade musical, estão muito interligadas. Acha que é isso que também faz com que a sua música seja interpretada como especial? 

Acho que isso faz com que as pessoas sintam mais empatia. Felizmente hoje partilha-se tudo muito rapidamente e quase em tempo real e consegues receber uma reação de uma canção que mexeu com uma pessoa. Muitas vezes, a pessoa que recebe a tua canção consegue vivê-la com mais intensidade do que tu, que estavas a escrevê-la naquele momento. Tu processaste tudo da caneta para o papel, mas aquela pessoa que depois recebe a canção consegue transferi-la para a sua vida.

Imagina estares em Portugal e receberes uma mensagem de São Paulo a dizer que, ao ouvirem a tua canção, mudaram de ideias e já não meteram termo às suas vidas. Que ao ouvirem a tua música, pensaram que afinal ia dar tudo certo. E vou tendo outros relatos de pessoas que abandonam a sua profissão e arriscam só porque ouviram a canção ‘Arriscar’. E tu aí pensas sobre o impacto que tem tu escreveres sobre o teu processo individual e sobre o teu crescimento, porque todos nós estamos a passar por processos dessa natureza.

E o que lhe dá mais gozo? O momento da atuação, de apresentar as músicas perante todos, ou o processo criativo, de escrita?

Nunca fico nervoso quando vou para o palco. Fico apenas extremamente ansioso, porque visualizo tanto o que vai acontecer que fico num estado de inundação tal que depois tenho de esbanjar. Consigo sempre sentir o que vai acontecer antes de subir para o palco, quase de trás para a frente. Por isso, acho que o que mais me dá gozo é mesmo o momento da partilha. 

Até porque o processo de escrita das canções é duro, porque são as minhas vulnerabilidades que acabam por ser expostas. Tudo o que sou está refletido nas minhas canções. Se partisse hoje para um outro plano da vida, sinto que, nas minhas canções, as pessoas iam poder dizer que me conhecem, como muita gente já o diz. E percebo porquê, porque realmente não filtro. É o único momento em que consigo ser 100% verdadeiro sem o politicamente correto e sem o maneirismo social. Ali, despejo muito do que não consigo dizer frontalmente. Nas minhas canções, não consigo mentir a mim próprio, quando estou a escrever.

Temos uma diáspora gigantesca, quer seja portuguesa, quer seja afrodescendente, e isso mostra o quão global nós somos para nos limitarmos só a este território, a este retângulo na Europa

Falou precisamente do facto de as suas músicas estarem cada vez mais a chegar mais além-fronteiras, até porque tem recebido muito boas críticas lá fora, de alguns meios de comunicação internacionais. Qual tem sido o impacto dessa realidade sobre a sua carreira?

Claro que já aconteceram coisas que ajudam a catapultar tudo isto para um outro universo. Ser considerado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um dos 100 africanos mais influentes do mundo, por exemplo, fez com que chegasse a muitas mais pessoas. Isso desperta a atenção dos curiosos e quando eles veem ou escutam, depois acabam por identificar-se com a mensagem e há um retorno constante. Tem acontecido muito isso comigo, desde a Coreia do Sul até aos Estados Unidos da América, passando pelo Canadá e pela Malásia, tenho recebido um imenso feedback de todos esses cantos do mundo.

Até porque temos uma diáspora gigantesca, quer seja portuguesa, quer seja afrodescendente, e isso mostra o quão global nós somos para nos limitarmos só a este território, a este retângulo na Europa. Então importa usar essa plataforma, que é a língua, para chegarmos cada vez mais longe. E sinto que este fundir do ritmo africano com a língua portuguesa e os seus derivados, como o crioulo, tem-me ajudado a chegar muito longe. As pessoas nem percebem o que digo, mas a mensagem contagia-se graças à intensidade que é depositada. Esse é o principal feedback que tenho tido a nível internacional. Dizem que não me entendem, mas que conseguem sentir a intenção.

É músico, compositor, ativista e ainda pai. Qual destas vertentes é o seu ‘eu mais verdadeiro’? Ou são todas elas uma pequena parte de si enquanto um todo?

Há uma delas que exercita o meu altruísmo sem que o consiga domar, que é a questão de ser pai. A questão de ser pai obrigou-me a exercitar muito mais a minha verdade.

E isso teve alguma influência na sua música?

Sem dúvida. Fez com que escrevesse o álbum ‘Badiu’ mais rápido do que faria noutra altura, porque o ‘Kriola’ nem tinha um ano e já estava a escrever este novo álbum. Isto porque havia muita gente a morrer durante a pandemia e achei que podia ser um desses. E sentia que ainda não tinha dito tudo.

No ‘Badiu’, quis apresentar a música ‘Utopia’, com o choro do meu filho na canção… Sinto que, de verdade, ser pai é a dimensão em que consigo complementar-me mais e que faz com que consiga entregar mais de mim em todas as outras vertentes. É na qual me sinto mais honesto.

Pus sempre os outros primeiro e quando tu investes demais nos outros e deixas de investir em ti, deixas de ter esse amor próprio… e então não sabes amar. Agora sinto que sei amar com mais qualidade

Falou precisamente da pandemia, que como sabemos teve um impacto forte sobre o setor da cultura, bem como noutras dimensões da sociedade. Que impacto teve ela sobre a sua carreira e sobre o seu processo criativo? 

Vou ter que ser muito honesto aqui. Sinto que foi o melhor que me aconteceu, este parar forçado. Não esquecendo o que aconteceu à humanidade entretanto e as várias famílias que sofreram com isto, mas sinto que foi o travão que nunca consegui dar a minha mesmo. Andava sempre à velocidade da luz, não descansava. Tinha acabado de ser pai e não parava, quando tinha prometido a mim mesmo que ia fazê-lo. Mas na pandemia fui forçado a parar e escrevi muitas canções. E isso mostrou-me que estar parado não é sinónimo de não estar em movimento. 

Foi principalmente um momento que aproveitei para trabalhar a questão da minha saúde mental e a questão espiritual, em que investi bastante em mim e sei que hoje já não retrocedo. Vejo-me a mim como a minha prioridade, quando em toda a minha vida aconteceu sempre o inverso. Pus sempre os outros primeiro e quando tu investes demais nos outros e deixas de investir em ti, deixas de ter esse amor próprio… e então não sabes amar. Agora sinto que sei amar com mais qualidade. 

Ouvi dizer que tem novidades para nos contar… que novidades são essas?

A novidade maravilhosa que tenho para dar é que acabo de estrear uma canção, um tema muito especial em parceria com o Ivann, um produtor das Maurícias. O tema original chama-se ‘Afro Tropical’ e tornou-se um sucesso através de outros remixes feitos em França, e agora a RCA e a Sony France fizeram um convite à minha editora, que me escolheu para fazer uma nova versão da canção. Fiz uma versão forte, gravada na Cova da Moura, num manifesto fortíssimo que mostra esta nossa crioulidade que só é vivida aqui em Lisboa. 

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