Vinte e um anos de vida escrita postos em palco por Raquel S. no D. Maria

O que são os cadernos, qual o ritmo e o movimento que têm, a sua escrita, os sentimentos, as emoções, os estados de alma, o choro, a mente, a saúde mental, e como fazer um espetáculo a partir do que se escreve, em fragmentos, dia a dia, ao longo de anos, estabelecem o desenrolar da ação de “Cadernos de”, com texto e direção de Raquel S., peça que vai estar em cena na sala Estúdio do Nacional D. Maria.

A criadora explicou à Lusa que o espetáculo resulta de uma caixa com 41 cadernos que uma amiga lhe ofereceu, para que ela fizesse com eles o que entendesse.

“E eu resolvi fazer um espetáculo”, disse Raquel S., abordando alguns temas que a amiga aborda nos diários. “Fala-se um bocadinho sobre saúde mental, sobre chorar e várias coisas”.

“Não se trata de uma pessoa com esquizofrenia nem nada que se pareça, mas de uma pessoa que tem, como quase todos nós, uma saúde mental frágil” e que, em alguns momentos, “tem depressão e ideação suicida”.

Mas esse não é o tema principal de “Cadernos de”, é apenas algo que é abordado no espetáculo, frisou.

Depois de lidos todos os cadernos, estes foram organizados pela ordem em que foram saindo da caixa e não por fator cronológico, tendo Raque S. procurado antes “uma ordem sobre como podia levá-los à cena”: pensar como um caderno todo escrito até à margem, cheio de diálogos pode ser uma cena, exemplificou.

E depois há o choro. Chorar é uma coisa que é referida em quase todos os cadernos, e portanto havia que encontrar uma forma de pôr isso no espetáculo.

Em cena, a peça fixa-se num espaço abstrato, semelhante a uma sala de espera, onde o espectador irá assistir a um monólogo de um “eu” diluído. Um eu que tanto pode ser de quem escreveu os cadernos, como de Raquel S. ou de atriz Maria Jorge, que se apresenta em palco.

Por isso, à medida que a peça vai decorrendo o público vai-se confrontando com uma certa confusão sobre que pessoa está a falar consigo e que tanto fala sobre os cadernos, como, de repente, os vive e parece existir dentro deles.

Sem ser ter uma abordagem documental nem nostálgica, “‘Cadernos de’ é mais um espetáculo de pensamento”, disse Raquel S, um espetáculo “de pensar o que é que são estes cadernos e do que é tentar chegar a uma verdade qualquer sobre a vida de autor ou sobre a vida de quem quer que seja”.

Produzido pela Noitarder, estrutura criada por Raquel S., em 2018, o espetáculo é uma criação conjunta com Maria Jorge.

Os figurinos e o espaço cénico são de Pedro Azevedo, a luz de Rui Monteiro, a imagem e vídeo de Nuno Matos e a música de José Alberto Gomes.

A peça vai estar em cena até 13 de novembro, com sessões de quarta-feira a sábado, às 19h30, e, ao domingo, às 16h30.

No dia 06, haverá sessão em Língua Gestual Portuguesa e uma conversa com os artistas no final da sessão.

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